segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Vencendo barreiras












imagem:google/asam

[...] recebeu a bênção de estar viva, mas não dá pra ser feliz, porque ainda não lhe vi mandando todo mundo pra [...] Será que morreu alguma coisa aí dentro de você? [...] Só não sei porque não vem seu choro. [...] que o olho secou?¹ [...] não estamos aqui por nada, só para ver a vida passar, [...] somente a passeio, que existem pessoas necessitando de atenção. [...] E a cada um convém uma tarefa. Uns dizem que é nosso “carma”, outros que somos pessoas escolhidas; eu prefiro pensar que a escolha é de cada um, ²

Solidariedade começa em casa
© Soaroir Maria de Campos
21/8/07

Hoje enquanto paria um versinho para “Coisas que se faz sozinho”, para “Poesia on-line” do RL, dançou imediatamente em minha mente a cena de meu filho rezingando ontem à noite na frente do computador, fuçando o Houaiss a fim de encontrar sinônimos para uma fieira de palavras usadas por Graciliano Ramos.
– Deixe isso para amanhã menino. - disse eu
– Não. - embirrou acrescentando que a prova de "Vidas Secas" seria para hoje.
- Deixe-me ajudá-lo então
- Não preciso, eu faço sozinho.
Já meio cambaio, por passar o dia em duas escolas diferentes, finalmente aquela encafuada mania que todo adolescente tem de achar que mãe não sabe nada, caiu por terra quando ele se viu embatucado com certos diacronismos antigos e expressões que não constam de dicionários e que o Word logo avisa: “Sem sugestões”
Não me pedia ajuda, mas dizia em voz alta cada palavra que procurava. Eu, para sorte dele, naquele dia não havia acordado nos meus azeites e, sem me aperrear, revelava o significado das palavras assim que as ouvia, antes mesmo que ele fosse ao dicionário. Depois de utilizar os meus velhos vocabulários, terminamos em uma enorme tabela de significados de nossa própria língua.
Logo após montarmos aquele mini dicionário brasileiro eu me pus a pensar como a vida é engraçada... Eu me indagava o que será que a vida tenta tanto nos dizer e a gente nessa nossa estreiteza não consegue entender de imediato.
Passei a parte mais importante para a minha formação enfurnada em um tão pequenino mundo que no dia em que, por necessidade, sua porta se abriu, minha ignorância permitiu que me categorizassem de pobre, burra e, conseqüentemente, inferior aos demais.
Eu não aprendi a falar, e a cada vez que eu abria a boca era motivo de chacota. Eu morria de vergonha e fui rapidamente substituindo meu vocabulário pelo o deste mundo maior.
Certa vez, numa consulta médica, respondendo sobre o que me fazia mal ao estômago:
- Por exemplo, angu me dá gastura
E não é que o dotô riu na minha cara!?
- Primeiro, angu é comida de porco. E gastura é coisa de roceiro.
Ou seja, não havia mesmo nada para me orgulhar do vasto e amplo vocabulário que eu trazia do meu mundinho. E olhe que eu nem tinha ouvido falar em Graciliano Ramos não. O fato é que sai do consultório muito injuriada. Hoje sei que aquele dotô não entendia de “Vidas Secas” de “Os Sertões” nem tampouco de gente.
E a vida foi rolando, como rola tudo na vida. E cheia de expressões que variavam do africano ao indígena, cheguei a Nova Yorque (1970) mal e porcamente* arranhando o inglês, só para provar a quem me deixou falando sozinha, que eu não era assim tão borra-botas.
E aqui estou tentando escrever esta crônica exaltando aquele vocabulário pelo qual tanto me menosprezaram! Só sei que, com ou sem remoque, final e aparentemente entendi o que a vida quer de mim: Vencer as minhas barreiras, ajudar a quem precisa, mas iniciar minha solidariedade primeiramente em meu próprio lar.♥

¹ Leila Marinho Lage
in ALTA

² Nina_21/08/2007
in Transpondo obstáculos ao longo da vida, carinho e dedicação
.

* parcamente

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